O dia nasce como um filhotinho de bicho que acabou de sair do ventre materno, dócil, belo, frágil. Mas em instantes o que era indefeso e terno se coloca de pé para exigir com fúria o que é seu.
Sexta-feira, 10 de Julho de 2009
Filhotinho
Segunda-feira, 16 de Março de 2009
Depois da tempestade
Terça-feira, 4 de Março de 2008
Os khazares
Um belo dia Bulan, rei dos khazares, teve um sonho no qual um anjo o exortou a deixar de ser pagão e adotar o Deus único. Se assim fizesse, seus filhos gozariam de profunda benção, seus inimigos seriam derrotados e seu reinado duraria “até o fim do mundo”. O rei argumenta ao anjo que de coração seguiria seu conselho, mas seu povo tinha “mente pagã” e precisava da ajuda do príncipe em sua empreitada. O anjo então aparece para o príncipe em sonho e parece convencê-lo. A seguir o rei é novamente visitado pelo anjo em sonho, que dessa vez pede para que o rei construa “um local de adoração em que possa habitar o Senhor”. O rei informa ao anjo que não tem recursos para tanto. O anjo tranqüiliza o rei dizendo que ele deve conduzir suas tropas para um país inimigo, “onde o aguarda um tesouro de prata e outro de ouro”. Com os tesouros em mãos e os pedidos do anjo satisfeitos, faltava agora adotar uma religião. O rei então mandou buscar um cristão e um muçulmano, já havia um judeu em sua corte. Depois de dias de debate dispersou os três e chamou-os separadamente. Ao cristão perguntou qual religião estaria mais próxima da verdade depois da sua, e o cristão respondeu que o judaísmo. Depois chamou o muçulmano e fez a mesma pergunta, e obteve a mesma resposta. Ao final, Bulan, o rei dos khazares converteu a si e a todo seu povo ao judaísmo.
A história acima parece um conto retirado de alguma edição de As mil e uma noites ou livro similar, mas não é. Trata-se de um resumo de parte de uma troca de cartas intitulada Correspondência Khazar, em que José, rei dos khazares, explica a Hasdai Ibn Shaprut, o ministro chefe-judeu do califa de Córdoba, como se deu a conversão de seu povo à fé judaica. Os historiadores acreditam que essa correspondência tenha sido escrita entre os anos 954 e 961 EC. Shaprut se mostra maravilhado com a idéia de existir na Diáspora um reino judeu independente e ao final de sua carta, escreve de forma emocionada: “Sinto-me obrigado a conhecer a verdade, saber se realmente existe um lugar neste mundo em que o torturado Israel possa governar-se sozinho, onde não seja submisso a ninguém”. É o amargor do Exílio em plena Época de Ouro dos judeus na Espanha.
O reino Khazar realmente existiu, nos limites entre o Ocidente e o Oriente, do Cáucaso ao Volga, entre os mares Negro e Cáspio. E sua conversão ao judaísmo se deu por motivos mais sólidos do que os que estão relatados pelo rei José, tentando descrever, 200 anos depois, como se deu a conversão de seus ancestrais.
A correspondência aludida é a principal fonte judaica relativa à conversão dos khazares, que buscaram e encontraram no judaísmo uma neutralidade que possibilitou manterem-se fortes no duro jogo de conquistas e dominações medievais. Com a palavra o autor do livro, Arthur Koestler, autor inglês de origem húngara: “No início do século VIII, o mundo encontrava-se polarizado entre as duas superpotências cristã e islãmica. Suas doutrinas ideológicas estavam soldadas na política de poder conduzidos pelos métodos clássicos da propaganda, ações subversivas e conquistas militares. O Império Khazar representava uma ‘terceira força’, que mostrara estar à altura das outras duas, tanto como adversário, quanto como aliado. Mas ele não podia manter sua independência caso aceitasse o Cristianismo ou o Islã – pois a primeira escolha o subordinaria imediatamente à autoridade do imperador romano e a segunda, ao califado de Bagdá ... Ao mesmo tempo, os estreitos contatos com Bizâncio e com o Califado mostraram aos khazares que o seu xamanismo primitivo era não só bárbaro e ultrapassado, em comparação às grandes religiões monoteístas, como também incapaz de delegar aos seus líderes a mesma autoridade espiritual e jurídica de que os governantes daquelas duas potências teocráticas do mundo – o califa e o imperador”.
A conversão, na realidade, apesar dos sonhos do rei Bulan, foi uma grande jogada estratégica de sobrevivência e manutenção de poder. E é claro que não podemos imaginar que um decreto real simplesmente tornaria os khazares judeus de um dia para o outro. O livro demonstra que o convívio dos khazares com “seus judeus”, esses em sua maior parte expulsos do mundo cristão pela intolerância bem marcada de uma sucessão de agressivos imperadores bizantinos, tornou possível a adoção da fé dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. Os khazares, notadamente múltiplos em sua formação étnica e cultural, receberam bem os judeus, e aprenderam a apreciar as leis mosaicas a ponto de entregaram-se a elas plenamente.
O ponto polêmico dessa história é que o autor, apoiado em farta pesquisa e documentação, apresenta a possibilidade real de que após a fragmentação do império Khazar, engolido pelo furacão Gengis Kan, seu povo tenha migrado para lugares que hoje conhecemos como Polônia, Hungria e Lituânia, dando origem aos askenazim. Daí depreendemos que os askenazim então não seriam semitas, e sim caucasianos.
Para entendermos melhor essa história fascinante vale muito a pena ler o livro. Entretanto ele encontra-se esgotado e só pode ser adquirido em sebos e lugares alternativos.
Fica aqui um pedido para que o khazares do Rio de Janeiro reeditem o livro o mais breve possível.
Os khazares – A 13ª tribo e as origens do judaísmo moderno
Arthur Koestler
256 páginas
Editora: Relume Dumará
Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008
Golda Meir também abriu o Mar Vermelho
Os meses que antecederam maio de 1948 foram particularmente difíceis para os judeus da Palestina. No campo diplomático, a violência árabe surtia efeito e fazia o mundo recuar no propósito de apoiá-los a ter sua própria nação. A luta política pela votação favorável à partilha, nas Nações Unidas, acirrava-se a cada minuto. No campo de batalha, os inimigos do futuro Estado de Israel preparavam-se para um ataque massivo em caso de votação favorável, e os judeus da Palestina teriam de enfrentar sozinhos inimigos muito poderosos.
Numa atmosfera assim era vital possuir armas, mais que isso, era necessário forjar uma máquina de guerra moderna que assegurasse as pretensões de autodeterminação do povo judeu.
Vamos entrar mais nessa história. Vamos a uma reunião dos líderes sionistas em Tel Aviv em janeiro de 1948 para observar a face amargurada de Ben Gurion lendo e relendo o relatório de seu tesoureiro. Não havia dinheiro para a inevitável guerra com os árabes inimigos. A fonte da comunidade judaica americana secara, pois essa deixava de crer na possibilidade de uma emancipação judaica no longínquo oriente-médio. Como se não bastasse o cansaço de quem já contribuíra e não conseguia ver nenhum avanço, grupos religiosos anti-sionistas faziam balançar a simpatia dos apoiadores da causa judaica na Palestina, e depois, necessidades mais próximas, como reconstruir a vida dos sobreviventes que estavam em solo americano e dar manutenção às comunidades mais pobres, monopolizavam as atenções e os recursos.
Era catastrófico. Um sonho de gerações estava prestes a repousar no fundo do Mar Vermelho, ou perecer de fome no deserto, ou ser dizimado por armas inimigas, que a essa altura pouco importavam se egípcias modernas ou ancestrais. Estavam apertados os corações dos mais exaltados sionistas.
Ben Gurion levantou-se para partir junto de seu secretário para os EUA e tentar reverter o jogo quando foi surpreendido por uma mulher que lhe disse: “O que o senhor pode fazer aqui, eu não posso, mas o que o senhor pode fazer nos EUA eu também posso”. Ben Gurion ficou muito contrariado, mas afinal cedeu por voto do executivo, e no mesmo dia Golda Meir voou para a América. Sem tempo de passar em casa e fazer as malas, Golda desembarcou em Nova York numa manhã atrozmente fria portanto um vestido leve e uma bolsa de mão.
Golda estivera nos EUA anteriormente e criara uma rede de relações que quase não lhe valia nada naquele momento: mulheres pioneiras, sionistas-trabalhistas, sindicatos, judeus socialistas, grupos de jovens etc. Em suma, gente sem recursos. Como fazer para acertar o coração dos judeus mais abastados, homens e mulheres que podiam lhe dar o que ela precisava: 25 milhões de dólares e a continuação do sonho de existir.
Golda estava em situação muito difícil.
E então quando uma saída parecia impossível, uma notícia surpreendente chegou ao ouvidos da corajosa mulher. Dois dias depois de ter chegado em Nova York, Golda Meir ficou sabendo que aconteceria uma conferência do Conselho das Federações Judaicas em Chicago. A pauta da conferência não incluía nem de longe os problemas da Palestina, e nem mesmo havia sionistas entre os conferencistas, mas lá estava a camada financeira superior do judeus americanos. Golda não perdeu tempo, fez contato com os organizadores e implorou muito para ter um pequeno lugar na programação de fala da conferência. Foi muitas vezes aconselhada a deixar a idéia de lado, pois segundo seus aconselhadores seria improdutivo falar a uma platéia que não queria ouvir o que ela tinha para falar. Mas Golda, vestida modestamente, com o cabelo repartido ao meio e atado em um nó, falou, e sensibilizou os presentes, e conseguiu na mesma noite dinheiro para o propósito sionista na Palestina, e recebeu indicações para buscar em outros lugares dos EUA mais contribuições que chegaram ao montante de 50 milhões de dólares. Dinheiro que possibilitou a fundação de um Estado judaico na Palestina 2000 anos depois da expulsão da Casa de Israel pelos romanos.
Um dos presentes a essa conferência assim descreveu Golda enquanto falava: “Nunca tínhamos visto ninguém como ela, tão simples, tão forte, tão à moda antiga... exatamente como uma mulher saída da Bíblia.”
Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008
Notícia publicada no Jerusalém Post em 02.01.2008
Por MATTHEW WAGNER
Tradução: Edu Pê Oliveira
Revisão: Dafne Prado Sabag
Jovem do Chabad tem conversão recusada
Se você crê que um homem morto é o Mashiach, isso pode impedir sua conversão ao judaísmo?
O rabino-chefe sefaradita, Shlomo Amar, será chamado para resolver uma dura questão teológica, e consequentemente julgar milhares de membros de uma corrente messiânica que há no Chabad Hassidim, corrente que crê que Menachem Mendel Schneerson, falecido em 1994, é o Mashiach.
Duas semanas atrás um jovem da Universidade da Flórida, que imigrou para Israel, e que estava apto a receber a cidadania israelense de acordo com a Lei do Retorno mas não era considerado judeu de acordo com a halacha, apresentou-se perante uma côrte rabínica em Jerusalém para converter-se ao judaísmo.
Ele interessou-se pelo judaísmo ortodoxo por meio do Chabad e estava estudando em uma yeshiva de Jerusalém. O jovem usava kipá, terno e tsitsit e tinha na ponta da língua todas as mitzvots.
Prof. Binyamin Ish-Shalom, diretor do Joint Institute for Jewish Studies, onde o jovem preparou-se para a conversão, disse que a côrte rabínica, impressionada com o alto nível de dedicação exibido pelo rapaz, estava a ponto de convertê-lo.
“De repente, um dos rabinos perguntou ao jovem se ele acreditava que o rebbe [Schneerson] era o Mashiach, ” conta Ish-Shalom.
“Ele respondeu, ´Sim, é isso que me foi ensinado`, ou algo assim. E pronto, ao menos um dos rabinos recusou-se a convertê-lo.”
Ish-Shalom rejeita a idéia de que crer que o falecido Schneerson seja o Mashiach constitua uma forma de idolatria.
Entretanto, uma fonte do State Conversion Authority disse que ao menos dois dos principais religiosos rabinos sionistas declararam que o Chabad messiânico é inaceitável para a crença judaica.
“Eles [messiânicos do Chabad Hassidim] atribuem a ele [o rebbe] poderes sobrenaturais anos após sua morte. Isso é qualquer coisa, menos judaísmo”.
Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007
Comentário da parashá Vayigash; uma frase de Fernando Pessoa
Sabemos que José é afastado de sua família em circunstâncias terríveis. Seus irmãos, ressentidos da preferência do pai para com ele, o negociam com mercadores que o levam para ser escravo no Egito. Os irmãos, em seguida, anunciam sua morte a Jacob, que se desespera. José então percorre um caminho tortuoso: a escravidão, a acusação de assédio sexual e a prisão. http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=513&p=0
E como uma flor que nasce no pântano, é da prisão que ascende para a glória. José, chamado pelo faraó, anuncia-se como instrumento de Hashem, e desenvolve suas potencialidades de interpretar sonhos, seus dons administrativos e, quando homem liberto e importante líder, dá perdão incondicional aos irmãos e os envia de volta para Canaã para buscarem seu pai e toda a Casa de Israel.
É impossível contrariar a idéia de que foi a crueldade dos irmãos de José, que o venderam para ser escravizado, que criou a possibilidade de salvação da Casa de Jacob do flagelo da fome, e mais, da transformação dessa casa em uma grande nação: “Eu sou D´us, D´us de teu pai; não temas descer ao Egito, porque lá Eu farei de ti uma grande nação”. E as 70 almas da Casa de Jacob multiplicaram-se e formaram, conforme a promessa divina, um povo forte e atuante em terras egípicias.
Mas um dia o Faraó não mais reconheceu José, e o povo hebreu experimentou o amargor da escravidão. E quando as chicotadas pareciam incontáveis como os grãos de areia do deserto, surgiu o patriarca Moisés. E das pedras que sobrecarregavam os ombros hebreus, e também de castigos brutais aos egípicios, que insistiam em escravizar, abriu-se o mar Vermelho. Após a travessia, a dádiva das dádivas: a Torá, e com ela o sentinento de tornar-se uma nação livre e independente, nação que caminhou para a Terra que D´us havia prometido.
Parece ser assim a saga do nosso povo, um jogo de claro e escuro o tempo todo, fazendo nascer de fatos detestáveis tempos bons e sociedades construtivas, e dessas mesmas, novo mergulho na escuridão para logo adiante retornar, de maneira transformada, à vida e à prosperidade. José foi escravizado para salvar a Casa de Israel, a Casa de Israel foi escravizada para lutar contra a escravidão e tomar nos braços a Torá, para então tornar-se livre em sua própria terra.
Talvez o moderno Estado de Israel, modelo de bem-estar social e ponte para o futuro luminoso que breve abraçará a humanidade, tenha brotado da fumaça das fábricas de morte em série engendradas pelos alemães nazistas.
Estive recentemente em Eretz Israel, e algo curioso me aconteceu: sem nenhuma explicação, em muitos momentos, ao visitar locais religiosos e sítios históricos, me vinha à cabeça a imagem do poeta português Fernando Pessoa. Eu já sabia de sua ligação ancestral com o judaísmo; mas e daí? A resposta veio essa semana quando navegando pela Internet com o propósito de ler outros comentários sobre a parashá em questão, pesquei a seguinte frase do poeta: “Nunca ninguém se perdeu. Tudo é verdade e caminho.”